Como um navio, um avião e um muro impactaram a arte?

 

RMS Titanic| Foto domínio público

por Luiz C. Silva


Essa pergunta, à primeira vista estranha, é muito pertinente se olharmos atentamente para o século 20, um século marcado por transformações profundas nos rumos da humanidade.
O início do século foi marcado por um grande acontecimento: o naufrágio do navio de luxo RMS Titanic. A história é amplamente conhecida ainda hoje. O maior navio do mundo saiu da Inglaterra em sua viagem inaugural rumo aos Estados Unidos e naufragou alguns dias depois, ao colidir com um iceberg.
Anos mais tarde, a queda de um avião marcou toda uma geração. Três jovens estrelas do rock and roll se despediram do mundo e entraram para a história naquele que ficou conhecido como o dia em que o rock morreu.
Décadas depois, um muro no meio de uma cidade simbolizava a divisão política do mundo. Duas Alemanhas, dois blocos políticos, duas ideologias e uma guerra fria.
Esses três eventos, tão distintos entre si, alimentaram a arte de maneiras profundas e duradouras, como veremos a seguir.

A ponta do Iceberg

A história do Titanic é conhecida mundialmente, mesmo tendo ocorrido antes da consolidação dos meios de comunicação de massa, como a televisão e a internet. Não é possível afirmar com certeza por que esse naufrágio penetrou tão fundo no inconsciente coletivo, mas tudo indica que o impacto da notícia na época, somado à ironia trágica de um navio considerado inafundável que afundou em sua viagem inaugural, ajudou a criar essa aura.
O cinema rapidamente se apropriou da tragédia. Uma rápida pesquisa revela dezenas de filmes sobre o Titanic. O primeiro deles foi lançado em 1912, no mesmo ano do naufrágio. Desde então, inúmeras obras referenciaram o fatídico acidente, cada qual a seu modo.
No fim dos anos 1990, o filme Titanic, de James Cameron, tornou se uma verdadeira febre mundial. Foi a maior bilheteria da história do cinema até então, e a canção "My Heart Will Go On", interpretada por Celine Dion, tocou exaustivamente em rádios de todo o planeta. A tragédia, recontada como uma épica história de amor entre passageiros de classes sociais distintas, consolidou um modelo de blockbuster romântico que influenciou o cinema nas décadas seguintes.
Mesmo após mais de um século, aquela tragédia permanece viva no imaginário popular, prova de como um desastre real pode se transformar em narrativa artística duradoura.

O sonho de Ícaro

Quase trinta anos depois do naufrágio do Titanic, um novo acidente abalou outra geração. Três jovens prodígios do rock perderam suas vidas a bordo de um avião. Em 3 de fevereiro de 1959, no estado americano de Iowa, chegava ao fim a turnê das jovens estrelas. Segundo relatos da época, após uma exaustiva temporada de shows a bordo de um ônibus e lidando com as dificuldades logísticas e meteorológicas do inverno, os artistas decidiram alugar um pequeno avião.
Buddy Holly, J.P. Richardson, conhecido como "The Big Bopper", e Ritchie Valens, tal qual o mitológico Ícaro que ousou voar alto e caiu, transformaram se em lendas. Esse evento ficou marcado no imaginário de uma geração inteira como o dia em que o rock morreu.
Anos mais tarde, o cantor e compositor Don McLean imortalizou o episódio na canção épica "American Pie". A música vai além da simples narração do acidente e utiliza metáforas densas para representar a perda da inocência dos anos 1950 e a transformação da cultura musical americana. As trajetórias dos músicos também foram contadas no cinema. O filme mais conhecido é La Bamba, de 1988, centrado na biografia de Ritchie Valens, mas que mostra os eventos até o acidente fatal.
A queda daquele avião, mais do que uma tragédia pessoal, tornou se um símbolo artístico da fragilidade da juventude e do preço da fama.
The Daily Tribune noticiando a morte de Buddy Holly, J. P. "The Big Bopper" Richardson and Ritchie Valens (Photo by GAB Archive/Redferns)


Em cima do muro

No início dos anos 1960, no coração de Berlim, começava a ser erguido um infame muro. Além de exteriorizar as lembranças e os traumas da Segunda Guerra Mundial, ele se tornou um símbolo vivo do mundo bipolar da Guerra Fria. Uma mesma cidade, duas nações, duas ideologias, tudo representado naqueles blocos de concreto e arame farpado.
O muro separou ideias, pessoas, amores e famílias. Tão icônica quanto sua construção foi sua queda, em 1989, que gerou um dos maiores movimentos de comoção popular do século XX.
Ao longo de suas mais de três décadas de existência, vários artistas se inspiraram nele. Entre os mais conhecidos estão Pink Floyd, Scorpions, Sex Pistols e David Bowie.
O Pink Floyd, já aclamado e estabelecido, lançou The Wall, um álbum conceitual que trazia diversas críticas ao sistema, à educação e também à Guerra Fria. A faixa "Another Brick in the Wall" remete ao muro, e nas partes instrumentais é possível ouvir sons de helicópteros e máquinas de guerra. Além desse álbum, em 1994, já depois da queda do muro, o grupo gravou "A Great Day For Freedom", uma análise do mundo pós queda e das mudanças que não aconteceram.
A banda Scorpions, no advento da queda, lançou "Wind of Change", canção que se tornou um hino de esperança para o fim da Guerra Fria e a reunificação da Europa.
Os Sex Pistols, em seu único álbum de estúdio, incluem na faixa "Holidays in the Sun" uma crítica pesada ao muro e à divisão ideológica que ele representava.
David Bowie, por fim, compôs "Heroes" durante seu período em Berlim Ocidental. A canção conta uma história de amor separada pelo muro e se tornou um dos maiores símbolos de resistência artística contra a opressão. Bowie chegou a se apresentar próximo ao muro, levando sua mensagem diretamente aos que viviam sob sua sombra.
A lista de artistas inspirados pelo muro não para. Pintores, escritores, cineastas e músicos continuaram a usar a imagem do muro como metáfora para divisões políticas, sociais e afetivas. A arte, mais uma vez, transformou uma barreira física em matéria-prima para a crítica e a emoção.
A queda do muro de Berlim em 1989.|Fonte:  www.br.de


E assim…

Navio, avião e muro. Três estruturas feitas pelo homem, para navegar, voar e separar se transformaram em algo muito maior do que seus projetistas imaginavam. O Titanic ensinou ao cinema a grandiosidade da tragédia romântica. A queda do avião de Buddy Holly mostrou como a morte de artistas pode gerar mitos musicais complexos e duradouros. O Muro de Berlim provou que até a divisão mais cruel pode ser subvertida pela criatividade e transformada em arte de resistência.



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