O bingo da militância e a panelinha dos "letrados"


por Luiz C. Silva


Mais uma vez, motivado por discussões da internet nos últimos dias, tive a necessidade de tecer minhas palavras sobre um fenômeno que venho observando com crescente incômodo. Trata-se de algo que denomino como o "bingo da militância".

Às vezes me deparo com questões que me inquietam profundamente. Acompanho diversas páginas dedicadas a movimentos sociais, minorias e causas distintas. Sou adepto ferrenho do conceito de pluralismo, pois acredito que a sociedade é múltipla, assim como as visões que a compõem, que são plurais por natureza.

Foi nesse contexto que, na última semana, não resisti ao impulso primitivo de comentar uma postagem no Instagram. A página em questão aborda temas relacionados à negritude e à questão racial. Trata-se de um espaço muito interessante, que promove reflexões relevantes e divulga perfis engajados na pauta. Contudo, numa determinada postagem, deparei-me com o objeto da minha discordância: o assunto "palmitagem" era novamente posto à mesa.

O tema me causou novamente o impulso de escrever. Mas dessa vez, não sobre o termo em si, e sim sobre algo que se tornou quase um fenômeno dos dias atuais: o tal Bingo da Militância.

Motivado pela questão da "palmitagem", descobri que, para alguns, eu não posso mais me manifestar em favor de pautas raciais. O motivo? Sou um "palmiteiro". Minha esposa é uma mulher branca e isso, aparentemente, tira pontos na cartela da legitimidade.

Mas não para por aí. Também não posso me manifestar em favor das causas feministas, porque sou homem. Tampouco posso defender o movimento LGBTQIAPN+, porque, mais uma vez, não tenho os pontos necessários nesse bingo de virtudes.

É interessante observar como a lógica das bolhas penetrou nesses grupos e tem criado divisões internas nos movimentos sociais. Vejo pessoas gabaritadas, letradas e com muita propriedade teórica caindo nessa armadilha do bingo. O pior é que essas mesmas pessoas não aceitam que as visões podem ser plurais, ainda que estejam dentro do mesmo espectro de ideias.

Reconheço que existem questões sobre as quais realmente não sou apto a falar ou tratar com profundidade. Mesmo assim, apoio essas causas. Porque acredito num mundo plural e para todos. O ideal é quebrar as barreiras e promover um mundo que comporte todas as diferenças.

No entanto, para alguns, deixei de ser igual no momento em que fiz uma escolha diferente da pregada por muitos. Isso é triste, pois nada vai mudar minha cor, minha história ou a minha forma de ver o mundo. O que esses indivíduos por vezes ignoram são os outros laços que podem ser construídos: vivências, histórias de vida, localidade, afetos. As relações, sendo repetitivo, são plurais.

E talvez seja exatamente essa pluralidade que assusta. Porque reconhecer que o outro, mesmo com vivências distintas, pode contribuir para a mesma luta exige um exercício de humildade que o bingo da militância não contempla. Exige escuta, acolhimento e, acima de tudo, a compreensão de que a transformação social não se faz com cartelas preenchidas, mas com pontes construídas.


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