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| (imagem ilustrativa gerada por I.A.) |
Enquanto as novas gerações mergulham no mundo digital, as big techs lucram com o que temos de mais valioso: nossa atenção e nossos dados.
por Luiz C. Silva
Que a internet é parte essencial da vida de todos, não há dúvida. Mas houve um tempo em que ela era coisa rara. Para os nascidos após os anos 2000, essa realidade é inimaginável. Para muitos de nós, no entanto, a internet chegou devagar, ocupou espaços e, silenciosamente, tornou-se extensão de nossa própria existência. O cerne deste texto, porém, não é a nostalgia, mas avaliar o impacto dessa revolução nas novas gerações — e, principalmente, no modelo econômico que a sustenta.
Em 2023, o mundo digital tornou-se mais palpável do que nunca. Reunimo-nos por lives, alimentamo-nos por aplicativos, locomovemo-nos por plataformas de mobilidade, transferimos dinheiro instantaneamente via PIX. Todas essas ferramentas trouxeram conforto e comodidade. Mas também trouxeram uma pergunta incômoda: a que custo?
O choque silencioso entre gerações
O termo "choque de gerações" sempre foi usado para explicar conflitos entre pais e filhos, a eterna disputa entre o novo e o antigo. Mas o verdadeiro choque de gerações talvez seja outro: ele se manifesta na relação que cada grupo estabelece com a tecnologia.
A geração millennial, aqueles que nasceram entre 1981 e 1998, cresceu em um mundo ainda analógico. A tecnologia, para eles, resumia-se a videogames, computadores de mesa rudimentares e celulares que só faziam ligações. Eles viram a internet chegar, estranharam, adaptaram-se.
Já a geração Z, nascida entre 1999 e 2019, já emergiu em um mundo digital. Seus primeiros anos escolares foram vividos com internet banda larga, smartphones ao alcance das mãos e, principalmente, com as redes sociais como ferramenta central de sociabilidade.
Para os millennials, a tecnologia foi uma conquista. Para a geração Z, foi um berço.
O capitalismo de dados e seus tentáculos
Foi nesse berço digital que floresceu o chamado capitalismo de dados. As redes sociais e as big techs descobriram que o produto mais valioso não era o que vendiam, mas o que recebiam: nossos dados.
Cada clique, cada busca, cada minuto de atenção é meticulosamente mapeado. Os algoritmos aprendem nossos gostos, preferências, medos, desejos. Sabem o que consumimos, o que assistimos, até onde movimentamos nosso dinheiro. E, a partir desse mapa detalhado de nossas almas digitais, passam a nos oferecer produtos, propagandas e conteúdos sob medida.
O problema não é apenas a propaganda direcionada. O problema é a falta de transparência. Há um monopólio silencioso dos dados nas mãos de poucas empresas. Não sabemos como nossas informações são tratadas, armazenadas ou compartilhadas. Nunca assinamos um contrato consciente — apenas clicamos "aceito" para ter acesso ao que desejamos.
Os impactos invisíveis
Há ainda outro efeito colateral pouco discutido: o uso prolongado das telas, a hiperexposição a conteúdos rápidos e a lógica viciante dos algoritmos. As redes não foram projetadas para nos conectar, mas para nos prender. Quanto mais tempo passamos nelas, mais dados geramos, mais valor produzimos.
As novas gerações pagam um preço que ainda não conseguimos mensurar completamente: atenção fragmentada, ansiedade, comparação constante, esvaziamento da vida offline. E, enquanto isso, as big techs colhem os lucros.
Os impactos são grandes e as questões a serem respondidas ainda demandam estudos aprofundados. Quem sabe a próxima geração, mais consciente dos mecanismos que a aprisionam, consiga reverter esse jogo. Ou, talvez, ela já tenha nascido dentro dele e sequer perceba as grades.

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