Quando a militância se torna um muro


A luta por direitos é essencial, mas o endurecimento do discurso entre iguais pode estar reconstruindo as barreiras que tanto buscamos derrubar.

Casal na escada| Foto: Luiz C. Silva

 

Por Luiz C. Silva

Sempre nos disseram que a militância serve para construir pontes. Para unir grupos em torno de causas comuns e derrubar barreiras históricas. Mas, ultimamente, tenho visto ela ser usada para erguer muros principalmente entre aqueles que deveriam estar do mesmo lado.

Não me interpretem mal. Militar é, e sempre será, necessário. O século 20 nos mostrou o poder da união de minorias e classes sociais na conquista de direitos. As barbáries da história nos ensinaram que a vigilância deve ser constante. O problema não é a militância em si, mas um fenômeno mais recente: a militância que se volta para dentro, que cria dogmas, que dita regras de conduta e cerceia os próprios pares.

Tenho percebido isso em diversos estratos sociais dos quais faço parte. O que deveria ser um espaço de acolhimento e debate tem se transformado, em alguns casos, em tribunal de conduta. Onde antes havia troca, passou a haver imposição.

Recentemente, acompanhava uma discussão em um perfil dedicado à negritude. O perfil, diga-se de passagem, traz reflexões pertinentes sobre racismo e questões raciais. Mas, vira e mexe, surgem debates sobre relacionamentos, "palmitagem" e temas afetivos sempre tratados de forma impositiva, como se houvesse uma única forma correta de existir e amar sendo negro.

Li um post bem escrito e fundamentado, que usava textos de Frantz Fanon para discutir relacionamentos interraciais. O problema não era a fundamentação teórica, mas a forma como o texto se apresentava: como o consenso final, a verdade absoluta. Quando algumas pessoas levantaram questões e experiências distintas, a resposta veio com argumentos de autoridade. O diálogo foi encerrado, não ampliado.

Foi aí que algo me incomodou profundamente. A discussão parecia partir da premissa de que o relacionamento interracial é, por definição, uma falha moral do negro, uma tentativa de apagar o próprio trauma ou de buscar acesso a uma classe superior. Não nego que isso exista. Conheço exemplos. Mas a generalização é perigosa. Ela desconsidera contextos, afetos reais e, principalmente, a complexidade da vida.

E é aqui que preciso me apresentar, mesmo correndo o risco de parecer defensivo: Eu sou negro, homem cis, pobre, periférico, hetero, agnóstico e de esquerda. Sou casado com uma mulher branca. Já fui criticado por iguais por não ter um casamento afrocentrado.

Meus pais, tios e a maioria dos meus parentes tiveram uniões afrocentradas. O contexto da época era outro: a sociedade, por muito tempo, só "permitia" ao negro se relacionar com iguais. Havia, sim, o desejo pelo corpo branco e a busca pelos acessos que a pele branca proporcionava. Muitos homens negros que ascenderam socialmente se casaram com mulheres brancas. Isso é fato histórico.

Mas a sociedade mudou. A consciência de classe avançou. O letramento racial também. Tabus caíram. E, com eles, as barreiras raciais para os afetos também se alteraram. Por que, hoje, uma pessoa branca não poderia se interessar genuinamente por uma pessoa negra? Por que essa relação é automaticamente interpretada como exotismo ou auto-ódio?

A questão não é simples. Ela merece debate, reflexão, contextos. Mas quando é tratada como questão de ordem, como regra moral inegociável, algo se perde. O que deveria ser um convite à reflexão vira intimidação. O que deveria unir, separa.

E assim, sem perceber, vamos erguendo novamente um muro que passamos décadas tentando derrubar. Dessa vez, construído de dentro para fora.


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