A terceirização da virtude e a mania de buscar referência em supostas celebridades

Nos últimos tempos, tem sido interessante perceber como o mundo tem se moldado em torno da economia da influência. Creio que seja um dos sintomas das mudanças na forma de comunicação.

Até meados dos anos 2010, a TV ainda era o maior sinônimo de visibilidade e forjava, quase de forma exclusiva, as celebridades de então.

Todo um universo de famosos foi formado pelas telas da TV. Músicos, atletas e outras figuras distintas, independentemente da área de atuação. 

Porém, com o advento da internet e das redes sociais, a dinâmica mudou e surgiram os influenciadores digitais. A partir de então, a roda foi reinventada.

Os influenciadores digitais ou “influencers” são um fenômeno que quebrou toda a lógica. Surgem de um jeito não previsto, já que surgem de fenômenos distintos. O YouTube nos brindou com os primeiros casos, depois as demais redes. 

Assim surgiu uma economia em volta desses novos atores. Empresas passaram a investir em pessoas com milhares de seguidores. Assim, a TV deixou de ser a maior alavanca para a fama imediata. 

Da mesma forma, esses personagens passaram a ser referência para boa parte da geração surgida desde então.

Do mesmo jeito, pais também passaram a projetar nesses influenciadores modelos de vida para seus filhos. De carona nesse fenômeno, o movimento dos “coaches” se ancorou. Passaram a vender estilo de vida, de comportamento e de pensamento. Vendedores de cursos surgiram aos milhares, amparados nessa lógica da influência digital. 

Além da economia da atenção, vimos também a terceirização do modelo de cidadão. Não tem sido rara a cobrança por posicionamentos, por condutas e discursos.

Feita toda essa digressão, vamos ao ponto central desse texto: A cobrança por modelos ou condutas de celebridades e influenciadores.

Acompanhamos, nas últimas semanas, a discussão sobre o Neymar ser convocado para a Copa e vimos a histeria de um grupo de fãs e apoiadores e, do outro lado, uma turma de “haters” ou críticos.  

O que essa polarização em torno de Neymar revela, no fundo, é a terceirização da própria bússola moral para figuras midiáticas. Esperamos que o ídolo nos mostre o que fazer e diga o que é certo. Esperamos que o influenciador aponte o caminho, que o atleta represente não apenas um esporte, mas um ideal de caráter. 

Terceirizar a virtude tem um preço. Esse fenômeno esvazia a responsabilidade individual e alimenta a mania coletiva de buscar referência, onde muitas vezes há apenas performance. Onde temos apenas uma imagem que parece dizer muito, mas que no contexto é vazia.

Ídolos nos inspiram, mas não devem substituir o exercício necessário e as vezes incômodo de ter um pensamento próprio. 



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