Deus Ama, o Homem Mata. Como os X-Mens explicam a Política Mundial de Hoje


Capa da Edição Brasileira da obra X-Men – Deus Ama. O Homem mata. Foto: Luiz Claudio


A graphic novel clássica dos X-Men torna-se uma lente crucial para decifrar o populismo messiânico e a violência política atual. 

Por Luiz C. Silva

Apesar de ser um título impactante, é apenas uma apropriação que este escriba faz de uma história emblemática dos quadrinhos. Sim, mais uma vez, venho aqui falar de quadrinhos. Mas não apenas indicar uma revista, quero trazer um pouquinho de reflexão.

Nos últimos meses, ocorrem fatos que causaram um grande rebuliço na imprensa mundial. No Brasil, o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro, no Nepal, uma tentativa de golpe de Estado; e nos Estados Unidos, a morte ao vivo de um “ativista”. Ainda que eu tenha ressalvas a chamar de ativista, sigo a tendência da imprensa sobre o caso, sem mencionar a famigerada guerra do Irã e o massacre na faixa de Gaza. Tratarei disso em outro texto.

Até aqui, parecem que são casos isolados. Mas todos têm algo em comum: Um grupo insatisfeito que decide agir pelas próprias convicções. 

No Brasil, todos se lembram do fatídico 08 de janeiro de 2023. Nos Estados Unidos no dia 06 de janeiro de 2021, aconteceu um fato parecido. Tudo isso é fato, noticia e é parte da história.

É importante contextualizar alguns fatos antes de prosseguir. Tanto o Brasil quanto os Estados Unidos tiveram presidentes que assumiram uma aura messiânica, populista e se uniram a setores religiosos, colocando-se como os enviados dos céus para salvar o país e o mundo.

E como isso se relaciona com os quadrinhos, você deve estar se perguntando. O que Trump e Bolsonaro têm a ver com quadrinhos? Te respondo que uma história parecida já foi publicada. Mas, calma. É apenas a interpretação deste escriba.


Entre quadros e balões

Na década de 1980, a Marvel Comics já fazia muito sucesso. E um grupo em especial tinha grande destaque: Os X-MEN! Um grupo de jovens mutantes que são segregados por serem diferentes. 
Desde o fim dos anos 60, quando foram criados por Stan Lee e Jack Kirby, os X-MEN são usados como uma alegoria a xenofobia e ao racismo. Não é o único caso dentro da Marvel, mas é o que mais se destaca.
Contudo, foi quando Chris Claremont assumiu os roteiros da revista que o grupo caiu de fato no imaginário popular.
Depois de vários arcos de histórias, em 1983 foi lançada a Graphic Novel que dá nome a este texto: Deus Ama! O Homem Mata! (God Loves, Man Kills).


A história

A trama se passa fora da cronologia habitual das histórias dos X-Men e do universo Marvel, podendo se situar em qualquer parte da cronologia e começa mostrando um duplo assassinato de duas crianças mutantes por um grupo chamado de “Purificadores”. 
Esse evento traz raiva e indignação a Eric Lehnsherr, também conhecido como Magneto, outrora inimigo dos X-Men e serve como o ponto motivador da história.
As páginas seguintes mostram um outro personagem central dessa história o homem Chamado Reverendo William Stryker, um televangelista que tem um programa de alcance nacional e que prega contra os mutantes.
A história mostra a união de dois inimigos O professor Charles Xavier, líder dos X-MEN e de Magneto, líder da irmandade dos mutantes. No decorrer da história ocorre o sequestro do Professor X e mais alguns mutantes. 
Conhecemos também a historia do reverendo Stryker, que por conta do seu preconceito, matou sua esposa e seu filho e planeja exterminar todos os mutantes.
A história culmina na tentativa de execução do plano e do sensacional discurso de Scott Summers, o Ciclope dos X-MEN.

Imagem da página 65 da revista. Foto: Luiz Cláudio
Imagem da página 65 da revista. Foto: Luiz Cláudio

Miscelando tudo

Mais do que uma alegoria, "Deus Ama, o Homem Mata" se mostra como um retrato falado da realidade. A principal qualidade de Chris Claremont ao tecer este roteiro, não estava em prever o futuro, mas em capturar a mecânica eterna do autoritarismo: a identificação de um bode expiatório, a instrumentalização do sagrado para legitimar o ódio secular e a sedução por soluções purificadoras e violentas para medos complexos.

Os eventos de 6 de janeiro em Washington e de 8 de janeiro em Brasília não são repetições literais da graphic novel. Longe disso. Mas as maquinações que levaram àquele resultado são manifestações do mesmo tipo de lógica perversa. William Stryker não precisa existir; seu espírito se manifesta e se propaga em discursos, algoritmos e narrativas que transformam o diferente no inimigo, e o adversário político em herege (ou aberração) a ser purgado.

A aliança entre Professor X e Magneto, no ápice da trama, é a mensagem mais crucial para nosso tempo. Ela simboliza que, quando confrontados por um mal que nega a própria base da convivência civilizada, as divergências internas precisam ser, momentaneamente, suspensas em nome de uma frente ampla pela democracia. 

Não se trata de abrir mão das convicções, mas de reconhecer que a luta pela preservação do espaço onde o debate pode existir é anterior e mais fundamental do que o debate em si.

Mais de quarenta anos depois, a obra não só nos entretém. Ela nos interpela. Ela questiona se seremos capazes de identificar os "Purificadores" do nosso tempo antes que seu projeto de exclusão e morte ganhe força total. "Deus Ama, o Homem Mata" é um espelho da nossa distorcida realidade. Aquele que reflete não apenas o que somos, mas o que arriscamos a nos tornar caso a tolerância falhe em responder, com união e clareza, ao grito fanático de que Deus ama, mas o homem mata.

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